sexta-feira, setembro 22, 2006

Budapest by Night

QUE SE ACALMEM os mais afoitos! Ao contrário do que o título deste post possa fazer pensar, não se trata dos recônditos do bas-fond magiar, mas sim dos cartões postais da capital húngara sob feérica iluminação noturna!


1. Castelo Real: vista do pátio noroeste, com a fonte do Rei Matias Corvino, à direita, e o domo, ao centro.


2. Ponte Széchenyi (Chain Bridge). À distância, vêem-se a cúpula e as torres da Basílica de Santo Estêvão.


3. Bastião dos Pescadores. Projetado por Frigyes Schulek, em 1895, serve como mirante do alto da Cidade Velha, na região do Palácio Real. As estruturas cônicas fazem referência às tendas dos nômades magiares.


4. Palácio Real: Porta dos Leões. Os leões foram esculpidos por János Fadrusz, em 1901.


5. Igreja Matias. a Igreja de Nossa Senhora foi construída nesse local da Cidade Velha, entre os séculos XIII e XV, mas foi no reinado de Matias Corvino (1458-1490) que ela foi expandida e adornada. Muitos detalhes originais se perderam quando os turcos otomanos a transformaram em sua Grande Mesquita, em 1541. Durante a liberação de Buda, no século XVII, ela foi quase que inteiramente destruída. Posteriormente, frades franciscanos a reconstruíram em estilo barroco. A igreja foi novamente destruída, em 1723, e posteriormente reconstruída por Frigyes Schulek, em 1873-96, em estilo neogótico, aqui presente.

Um pequeno interlúdio

DEIXANDO UM POUCO de lado as notícias e imagens magiares, leio no blógue de Pierre Assouline (v. aí nos links, ao lado) novas sobre a estréia do filme baseado no livro O Perfume, de Patrick Süsskind. Notícia a se comemorar, sem dúvida! Os mais jovens podem não se lembrar, mas o romance causou espécie em seu lançamento, na segunda metade dos anos 80. De fato, o livro é genial! Como bem disse Assouline, o sucesso foi excepcional (15 milhões de exemplares vendidos, vertido para quarenta e duas línguas), "ce qui est exceptionnel pour un roman de cette facture et de cette ambition". Nesses tristes tempos em que as livrarias só parecem soltar os Dan Browns e Paulos Coelhos aos borbotões, que saudades de livros assim!

O Perfume [Das Parfum, Alemanha, 2006]. Produção de Bernard Eichinger. Direção de Tom Tykwer. Elenco: Ben Whishaw, Dustin Hoffmann, Alan Rickman (yes!), Sara Forestier e John Hurt (fazendo a narração, yes!).

quinta-feira, setembro 21, 2006

Mais notícias de Budapeste

A HUNGRIA COMEÇOU a semana tomada pela incerteza política, com manifestantes pedindo a cabeça do Primeiro-Ministro, Ferenc Gyurcsány, após a imprensa ter vazado uma gravação de reunião interna de seu Partido Socialista (MSzP), ocorrida em maio, na qual o premiê, valendo-se dos mais escabrosos palavrões do idioma magiar, acusa seus correligionários de enganar o povo com "mentiras ditas noite e dia". De lá para cá, skinheads mal-encarados atacaram a sede da TV estatal, incendiaram carros, lutaram contra a polícia de choque e o saldo, até o momento, é de duzentas pessoas presas e outras tantas feridas (em sua maioria, policiais).

De qualquer modo, no fim-de-semana, a capital vivia dias idílicos, de céu azul e centenas de turistas no centro velho. Sei que vou desapontar o caríssimo Luís, mas, como tenho queridas esposa e filha para criar, deixei de lado os jatos de água e as bombas de gás lacrimogêneo e, agruras políticas à parte, vai aqui meu registro fotográfico da bela Budapeste:

1. As águas do Danúbio cortam a cidade em duas metades. Nesta foto, o Palácio Real dos Habsburgos, reconstruído após a Segunda Guerra Mundial, domina a paisagem do topo de sua colina, em Buda.

2. A ponte Erzsébet (Sissi), vista do mirante da colina Géllert. Do outro lado, Peste.

3. Ponte da Liberdade (Szabadság Híd), originalmente Francisco José, inaugurada em 1899.


4. O celebrado hotel Géllert, com suas cúpulas de estilo otomano.

Aparentemente, não consigo carregar mais imagens neste único post. Colocarei mais em breve!

sexta-feira, setembro 15, 2006

Imagens de Budapeste

1. Praça dos Heróis, importante monumento cívico à história magiar, localizado em Peste.



2. Alkotás (pronuncia-se "Olkotásh") Point, moderno prédio de escritórios onde está instalada a Embaixada do Brasil em Budapeste, no número 50 da Alkotás útca (pronuncia-se "útso", rua).


3. Meu hotel, o simpático Gold Hotel, no número 14 da Hegyalja útca, em Buda.


4. Vista da janela do meu quarto, para a Berényi út.


5. Arquitetura imperial: esse prédio, também na Hegyalja, traz a data de 1909 na fachada. Ou seja, construído ainda no reinado do Francisco José, do Império Austro-Húngaro.

Por enquanto é só, pessoal! Neste fim-de-semana, vou à caça das fotos verdadeiramente espetaculares!

quarta-feira, setembro 13, 2006

Notícias da Panônia

DESDE O ÚLTIMO DOMINGO, por felizes razões profissionais, estou aqui em Budapeste, capital da Hungria, região que integrava a antiga Panônia dos romanos. Por enquanto, as exigências do trabalho impediram que me aventurasse na região central, mais antiga e interessante da cidade, mas prometo que, neste fim-de-semana, volto de lá com fotos. Até então, meu roteiro se resumiu a uma caminhadinha de quinze minutos entre meu hotel e a Embaixada do Brasil.

Para rechear o post, porém, vou iluminando quem se interessar com dados desse país interessantíssimo que é a pequena e brava Hungria. No coração da Europa Central, cercados de povos eslavos, os húngaros são grupo à parte, descendente dos magiares que aqui se estabeleceram por volta do ano 896 d.C., liderados pelo chefe tribal Árpád, fundador de dinastia que persistiu até 1301. Não são, portanto, eslavos, mas "fino-úgricos". Os fino-úgricos, conforme atestam pesquisas bio-históricas e lingüísticas, originaram-se para lá dos Montes Urais, na Ásia Central, por volta do segundo milênio antes de Cristo. Entre 1000 e 500 a.C., os magiares se separaram da família, que já havia individualizado o povo que, mais tarde, daria origem ao idioma finlandês, e passaram a tratar das próprias migrações. Assim, sucessivamente, vieram para o lado de "cá" dos Urais (de V a.C. a IV d.C.), para o Cáucaso e a margem norte do Mar Negro (de 600 a 750 de nossa Era), para o leste dos Cárpatos e, finalmente, para a vasta planície (a puszta húngara) no século IX. Nesse ponto, levavam uma vida de pilhagens e ataques, como seus parentes hunos, ameaçando regiões do Império Romano-Germânico, da França e até mesmo dos Pirineus! Tal era sua fama como agentes de destruição que uma famosa oração, datada do final do período das grandes migrações (X a XI d.C.) suplicava: "Senhor, livrai-nos das espadas dos vikings e das flechas dos húngaros".

Essa ascendência fino-úgrica faz do húngaro um idioma singularíssimo, difícil e único. A longa separação dos ramos da família fez com que o húngaro e o finlandês se desenvolvessem individualmente, o que torna uma língua incompreensível para o falante de outra. Chico Buarque, no seu "Budapeste", cita que o húngaro é "a única língua que o diabo respeita". Para os exasperados falantes de línguas indo-européias, o húngaro não dá trégua, com seus palavrões como "egészségére!" (saúde!, como no brinde), "köszönöm szépen" (obrigado) e "illatszerbolt"(farmácia).

Gradativamente, porém, os belicosos húngaros se assentaram em nação mais condizente com o estado de seus vizinhos e, assim, no Natal do ano 1000, foi coroado seu primeiro rei cristão, o futuro Santo Estêvão (István I), que cristianizou toda a população e deu início à obra de expansão do império magiar. Os húngaros resistiram às tentativas de incorporação pelo Sacro Império Romano-Germânico e pelo Império Bizantino, tendo eles próprios, em contrapartida, conquistado os territórios das atuais Croácia, Sérvia, Bósnia e Bulgária, além de dominar, originalmente, o que seria mais tarde o território da Romênia.

A expansão dos turcos otomanos, porém, representou séria ameaça aos magiares; primeiro, ameaçando seus interesses na península balcânica (Sérvia e Bulgária), depois, no próprio território húngaro. Em 1541, os turcos efetivamente conquistaram a parte central da Hungria, chegando mesmo a invadir Buda, sede do reino. A Hungria independente ficou reduzida a uma porção norte-ocidental, protegida pela Áustria (com a morte do rei Luís II na Batalha de Mohács, travada contra os turcos em 1526, a nobreza húngara cedeu o poder a Ferdinando I da Áustria, da Casa dos Habsburgos), enquanto que o centro se tornava parte do Império Otomano e o leste, disputado por turcos e húngaros, formava o reino da Transilvânia.

Forças austríacas expulsaram os otomanos em 1689, dando início a um processo de gradual fusão entre a Áustria e a Hungria. A despeito da revolta conduzida pelos nobres, liderados por Ferenc Ráckózi (1703-17011), com o intuito de conferir maior autonomia política à Hungria, o processo seguiu inexorável, culminando no juramento de fidelidade dos nobres húngaros à imperatriz Maria Teresa, dos Habsburgos, em 1741. Nova revolução nacionalista eclode em 1848 (inflamada pelo poeta Sándor Petöfi) e, para não perder a irridenta Hungria, a Áustria aceita a conformação de um "Compromisso", que efetivamente cria a monarquia dual e o Império Austro-Húngaro, em 1867. Em seu auge, o Império foi dirigido por Francisco José e Elizabeth, a Sissi imortalizada nos filmes da Romy Schneider, que agradam senhorinhas românticas de idade mais avançada.

Como se sabe, o Império Austro-Húngaro implodiu nos fogos da Primeira Guerra Mundial, iniciada com o assassinato do Príncipe Herdeiro Francisco Ferdinado pelo anarquista Gavrilo Princip, da "Mão Negra", na fatídica Sarajevo. Ao fim da Guerra, o Império derrotado foi desmembrado pelo Tratado de Trianon (1920), pelo qual a Hungria perdeu dois terços do antigo território e mais da metade de sua população. Seguiu-se um período de conturbação política, com uma breve experiência comunista, liderada por Béla Kun, até a estabilização com o governo do Almirante Miklós Hórthy -- almirante de um país sem marinha e sem mar e regente de um reino sem rei (!!!). Hórthy permaneceu no poder até 1944, período em que a Hungria se aproximou da Alemanha nazista, na esperança de reaver os territórios perdidos em 1920. Ocorre aí período trágico na história do país, com a ascensão de grupos fascistas e a deportação e extermínio de cerca de 500 mil judeus húngaros.

Novamente derrotada na Segunda Guerra Mundial, a Hungria cai na órbita da União Soviética e sua Cortina de Ferro. Contudo, o país explode na revolução de 1956, liderada por estudantes, intelectuais e operários. Esmagada por tanques soviéticos, a experiência revolucionária lança ao exterior nova corrente de imigrantes húngaros. O líder do movimento revolucionário, o ex-premiê Imre Nágy foi fuzilado por tropas soviéticas em 1958, após julgamento secreto e arbitrário. Posteriormente, Nágy, tornado herói dos húngaros, mereceu discurso de desculpas do Presidente russo Bóris Iéltsin.

Segue-se um período bastante curioso, sob o governo de János Kádár, conhecido como "comunismo goulash", em que a Hungria torna-se o mais "ocidentalizado" país do Leste comunista. A partir de 1972, o país permite a entrada de investimentos estrangeiros e a propriedade privada é admitida em certo grau. Com o fim do comunismo, em 1989, a Hungria volta-se com todo ânimo para a integração nas estruturas ocidentais, tornando-se parte da OTAN, em 1999, e da União Européia, em 2004.

Essa é, em linhas bem gerais, a história da Hungria. Volto mais tarde, portanto, com imagens e observações sobre o atual estado do país.

quinta-feira, agosto 24, 2006

O Nick Hornby de todos nós

Acho bem legal as listas que o Pablo compila das suas paixões e ódios, lá no seu Pablog, qual Nick Hornby "next door". Resolvi começar as minhas:

Adoro:
Minha esposa e minha filha. Chocolate. Aliás, brigadeiro. Livros. Sonhar com livros. Livrarias. Pães, sem mais nada além da própria textura e sabor. Música barroca. Bach. Bryan Ferry. Julie London. Dias frios e chuvosos. Chá preto com leite. Inglaterra eduardiana. Evelyn Waugh. Autores ranzinzas. Paulo Francis. Filmes antigos. Meus filmes cult. Thomas Crown com o Pierce Brosnan e a René Russo. The Man who Would be King. Filmes do James Bond. Cary Grant e Grace Kelly. Paletó e gravata. Coisas bacanas, feitas com arte, mesmo que eu não possa comprá-las. Bom humor e gentileza juntos. Peter Mayle (confesso, já gostei mais do que hoje). Jorge Luis Borges. Não-ficção sobre espionagem. Sandman do Neil Gaiman. Coisas que misturam gêneros, erudição e cultura pop, folclore e história, mito e filosofia, como o Sandman do Neil Gaiman. Pizza de São Paulo. Coca-Cola normal. Bebel Gilberto. Tom Jobim. Rio de Janeiro, 1957. Qualquer coisa de 1957. Jaguar S-Type e XK 120. Kit Kat. Chocolate com menta. Histórias de exploradores. Desertos. UK. The English Patient, do Ondaatje. Frank Sinatra, fase Capitol. Canções do Cole Porter. Suplementos literários. Ler os blógues dos amigos. Andar de carro. Desenhos do Tex Avery. Tom e Jerry, Pica-pau e Pernalonga antigões.

Odeio:
Gente grossa. Blasé excessivo. Música caça-níqueis alegre e idiota. Axé "music". Ritmos baianos de verão, todos os que já vieram e os que ainda virão. Sertanejo e brega romântico dor de corno. Programas de auditório e de "artistas populares" (por que condenam o povo a só se divertir com porcaria descartável, sem inspiração e sem vergonha?). Livros de auto-ajuda e livros "da moda". Filmes idiotas. Comédias idiotas. Filmes de ação idiotas. Relativismo hipócrita. Calor demais. Velozes e Furiosos. Glamurização da bandidagem. Levar vantagem em tudo. "Sabe com quem você está falando?". Arrivismo. E o Vento Levou. Modernizações "calhordas" de desenhos como Tom e Jerry. Coisas "dumbed down". Missão Impossível 2. Armageddon. Filmes da dupla Bruckheimer/Bay. Ben Affleck. Egos inflados, cérebros atrofiados. Concretistas, tribalistas e coisas do tipo. Bolero de Ravel. Música "erudita" com vocação para picadeiro (Chapì, Rimsk-Korsakhov e essas coisas). Neonazismo e xenofobia. Jim Carrey fazendo caretas. Jogo de futebol na TV. Domingo à tarde e à noite. Avião atrasado. Multidões alegres e gritonas. Protestos "de esquerda" na Esplanada. Esse papo de que, no Brasil, todo mundo É índio, negro, mestiço, mulato, bacana, cordial, etc, etc. (além de NÃO ser verdade, viu gente?, ainda é preconceito disfarçado de coisa positiva). Funk carioca. Roupas das mulheres do funk carioca. Gírias do funk carioca que a TV quer "nacionalizar". Jornalistas rasos dando palpite sobre tudo. Gelatina com creme de leite. Britney Spears e rappers americanos que posam de bandidões. Gente que não responde a "bom dia".

Com certeza deve ter mais coisas para acrescentar nas duas listas, mas, por agora, basta.

terça-feira, agosto 22, 2006

Um diálogo ente blógues - III

OPA! LEITURA DESATENTA e equivocada! Cometi um pecado mortal!

Com efeito, bastante barrocas as imagens em cera. Confirmando a percepção de que este diálogo está me saindo um passeio pelos labirintos da memória, recordaram-me o querido Augusto dos Anjos e seu "a desarrumação dos intestinos assombra. Vêde-a!", verso lapidar do "Monólogo de uma Sombra".

Aliás, falando em assepsia barroca, li, no livro do André Senet, que item obrigatório às aulas de anatomia do período eram fatias de limão ou laranja, usadas para mascarar odores nauseabundos. Será que isso ainda existe nas academias?

E, de fato, "Restoration" comete um grande pecado, de que Robert Downey Jr. é mais o veículo do que a causa: escorrega feio no melodrama em suas porções finais. Mas não me lembro muito, pois só vi o filme uma vez, no já longínquo anno Domini de 1995. Coisas do século passado, como vêem...

Lembrei também dos libelos contra o corpo e a matéria nos monges de Eco. Creio que Ubertino era o porta-voz dessa corrente ascética-espiritual, estou certo?

Agora, Cid, partamos desses senderos que bifurcam dos labirintos da memória e passemos aos passeios nos bosques da ficção! É seu dever botar a história do Falópio no papel!

(Pronto, lembrei agora do "exercício literário" que o narrador de "Bufo & Spallanzani" aplica aos hóspedes da pousada do Pico do Gavião. Quem não leu esse livro maravilhoso, já está perdendo tempo!)

Um diálogo entre blógues - II

CONTINUANDO À TODO vapor com nosso Interblog Dialogue Initiative Operating Template (I.D.I.O.T.), devo admitir que acho estranha a associação do Marcelo entre "medicina" barroca e assepsia. O conceito, para mim, conjura mais imagens que completam as belas pranchas do De Humani Corporis Fabrica (olha o Vesálio aí, gente!) com bizarrices como o orangotango dissecado, que mestre Gaiman tão bem coloca no seu Brief Lives. Lembra também outra coisa que mencionei ao Cid quando conversamos sobre o Falópio: dentre as minhas mais belas recordações de infância e adolescência estão as várias tardes lendo os volumes da coleção "Descoberta do Mundo", da Editora Itatiaia, de Belo Horizonte (ainda existe?), adquiridos por meu pai. Fazia parte da série de doze livros um fascinante volume, de André Senet, sobre o desenvolvimento histórico da medicina e do conhecimento do corpo humano nas heróicas fases da Antigüidade a Pasteur. O livro se chamava "O Homem descobre seu corpo", que fazia excelente par com "O Homem contra os micróbios" -- este, conto de terror sobre a batalha inglória contra nossos microscópicos co-condôminos do planeta, com escaramuças e grandes confrontos como a Peste Negra do século XIV. Havia lá no livrinho o aterrador panorama da doença sendo importada, dos confins da Ásia, para os centros mercantis da Europa, prenunciando a grande mortandade que assolou o continente.

Daí, aos saltos que dá a memória, lembro do belo filme "Restoration" [EUA/Reino Unido. 1995], com Robert Downey Jr. e Sam Neill, e suas visões da Inglaterra pós-cromwelliana assolada pela peste, com doutores embuçados naqueles bizarros capuzes ornitoformes, onde, creio, colocavam-se esponjas embebidas em vinagre, para matar os mortíferos "esporos" da doença, posto que se acreditava no contágio pelo ar. Por isso, a cena dos nobres envoltos em espessos vapores de incenso, tentando, inutilmente, purificar os eflúvios da pestilência.

Um diálogo entre blógues

O CARÍSSIMO AMIGO Marcelo Cid, no seu blógue, coloca post deveras interessante sobre um argumento sonhado de uma história com o anatomista Falópio (1523-1562), aquele da trompa homônima. À parte os imediatos e também interessantíssimos comentários que se possam tecer (e já devidamente feitos pessoalmente) sobre os topos dos livros sonhados, das bibliotecas de sonhos, dos livros não-escritos, escritura labirintina e borgeana, etc, sobre a incrível potencialidade do argumento como novela, roteiro cinematográfico, et caterva, e sobre as ilações com o excelente Bufo & Spallanzani, do Rubem Fonseca (não vi o filme, mas já digo que o livro está entre meus preferidos, mais um crédito à minha excelentíssima professora de português do colégio, a mestra e mentora Cláudia Lukianchuki, provando que se lia, e bem, nas escolas d’antanho), de tema semelhante, o que quero comentar agora, espero que inaugurando uma forma de diálogo com o amigo e autor, são as curiosas peculiaridades da divisão temporal ("cronomástica"???) adotada por ele naquele post.

Sim, Renascimento e período Barroco. É natural, como ensinam as escolas, que o primeiro seja, de facto e de jure, categoria temporal precisa para definir o tempo histórico – credencial conquistada pelo muito de ruptura, inovação, particularidade e influência que o período trouxe ao gênero humano em todos os campos (história, sociedade, ciência, arte, filosofia, e o que mais se possa pensar). Deixemo-lo, então, de lado, com o Falópio que aí cabe muito bem. Agora, é o segundo que me parece curioso. Sim, porque o termo "barroco" não implica, necessariamente, uma constelação de idéias tão vasta e precisa como o Renascimento. Claro, há que se falar em barroco na música, na pintura, na arquitetura, mas não é próprio falar numa ciência barroca (seria isso um oxímoro?), numa filosofia barroca, numa sociedade barroca e congêneres.

Afinal, no próprio domínio da arte, que lhe é próprio, o Barroco se presta a subdivisões e fases – maneirismo, rococó – que já demonstram (quod erat demonstrandum) que seu poder sobre o tempo histórico é menos fulcral, menos coercivo que o do Renascimento. Daí que se possa referir, ao mesmo recorte cronológico, com maior ou menor ênfase em períodos específicos, com uma pluralidade de termos, o que abarca o Século das Luzes, o Iluminismo, a Idade Moderna, o período de Luís XIV, o Antigo Regime, o Oitocentos, num campo mais filosófico-político, ou precisar aqui e acolá, seus muitos notáveis nas artes e nas ciências: Canova, Bach, Vesálio, Gongora, Watteau e Bernini seriam, então, apenas alguns, numa vasta lista que se presta a nomear os sacolejantes anos dos séculos XVII e XVIII.

Claro que não quero, com isso, panfletar contra a escolha do grande Marcelo Cid (já me apresso a explicar, antes que seja mal interpretado por leitor menos hábil), acertada como todas as outras, mas apenas discorrer sobre as variadas facetas desse período que acho um dos mais fascinantes da história ocidental. Claro também que isso abre portas para (espero que logo mais) tratar de uma das mais interessantes personalidades e obras do período: Giacomo Girolamo Casanova, o veneziano, cuja obra (sua vida) é dos relatos mais ricos, coloridos, interessantes, variados e incríveis de que se tem notícia.

Está começado o diálogo, eia pois. Que continue!

quarta-feira, julho 12, 2006

E pra não dizer que não falei das flores...

OL' BLUE EYES! Especialmente na fase da Capitol (1954-1962), com Nelson Riddle à frente da orquestra. A gente escuta e pensa que a vida nunca foi tão rósea, leve e cheia de graça como naqueles poucos anos.

Volumes foram e continuarão sendo escritos sobre Sinatra -- sobre o fraseado impecável, a vida tumultuada, a "alusão" Johnny Fontaine, o renascimento espetacular, no cinema, com From Here to Eternity, a presidência do "Rat Pack" et al. Mas é ali, nas canções daquele período, que o gênio do homem se mostra com maior vigor.

Minha preferida? Too close for comfort, 1959.

terça-feira, julho 11, 2006

Conhece-te a ti mesmo

RELENDO AS ÚLTIMAS postagens, acho que o título -- ou, pelo menos, o dístico -- deste blógue deva ser mudado para algo como "resmungos acérbicos d'um velho pedante". Hummm, será que alguém, além de mim, se interessaria por título tão saboroso?

De sapos e príncipes

O SER HUMANO (aham!), quando quer, é mesmo um bicho muito esquisito. O jornalista Reinaldo Azevedo (que, sorry, não é o esquisito a quem me refiro e cujo blógue segue arrolado aí nos links, para me facilitar o prazer de lê-lo todas as manhãs) encerrou, no mês passado, as atividades do veículo que o tornou conhecido, admirado e execrado neste país: a revista "Primeira Leitura" e o site homólogo. O que quero comentar é que, dentre as muitas mensagens de apoio e opróbrio recebidas por ele, particularmente após entrevista explicativa ao Obervatório da Imprensa, uma particularmente chamou minha atenção, por motivos que quero expor agora.

Foi nos comentários à entrevista do Observatório. Uma leitora, se bem me lembro, encasquetou de dizer que o que achava insólito no Sr. Azevedo era a aparência. E perguntava, fazendo-se atônita, se aos demais não partilhavam de seu estranhamento diante de figura, como dizia, tão asseada (or words to that effect), sempre tão limpinha e arrumadinha, referindo-se às aparições dele no programa televisivo "Roda Viva", da TV Cultura. Ademais, a cronista da imagem alheia queria, pelo que entendi, insinuar que tal aparência evidenciaria uma tal fixação anal que acomete os proto-capitalistas em tenra idade e prenuncia sua desumana avareza, ou alguma outra platitude freudina desse quilate.

O tempora, o mores! Nos meus verdes anos, certamente fruto de uma era mais bárbara, rasa e menos iluminada dos pre-hominídeos -- e, portanto, ridícula aos olhos blasés dessa malta de coevos --, conceitos como asseio, educação e urbanidade eram coisas que aprendíamos lá na pré-escola, junto com as primeiras letras, como valores que, em certa medida, go hand-in-hand together, não como signos de vícios ou perversões. Mostravam que, não só na escola, mas também em casa, tínhamos pais e mães, mamíferos de sangue quente, que nos amavam (e faziam bolo!) e cuidavam de nós, o que nos separava de víboras e outros bichos que levam às últimas conseqüências essa weltanschauung de "cada um por si e Deus contra todos".

Alas, poor Yorick, a caravana passa e os cachorros ladram, e o mundo vai ficando mais sujo e feio, decerto como os andrajos pediculosos que essa mulher, pelo que entendo, deve querer que usemos para cobrir as vergohas, se tanto.

Será que gente assim, quando abestalhada diante da graça apurada (fico, para ser justo, em exemplos como o refinado, leve e gostoso savoir-vivre de um Fred Astaire ou de um Cary Grant, ou seja, no gênero mais "terreno" da espécie; afinal, seria jogar baixo lançar nomes de fêmeas, já que, "iconicamente", a mulher alça vôos infinitamente mais altos de recompensa estética, tais quais, vá lá, não resisto, uma Audrey Hepburn parafraseando a Vitória da Samotrácia), sente-se meio morlock, sapo nauseabundo, e acha feio aquilo que não é espelho? Claro que não quero, com isso, comparar o jornalista com esses exemplos injustos (bidu!), mas refiro-me, exclusivamente, à questão dos valores, ao que escolhemos como desejável. Sempre achei que era próprio do ser humano buscar superar a condição de golem, de barro animado em que o bafejo de Elohim insufla a vida, mas vejo que me engano.

Lembro-me daquele instante belo d'O Alfaiate do Panamá, do LeCarré, em que o dito diz à esposa que ela o faz querer ser a better person (or words to that effect). Pelo visto, há quem já ache que nos afastamos demais da caverna.

Eros e a Civilização

ESQUECI DE FALAR, no post aí de baixo, a propósito de Go Slow, uma coisa interessantíssima: para as gerações de hoje, que acham que o mundo começou ontem e que ninguém é tão safo/cool/original/sexy/tudo-de-bom quanto eles mesmos, deve ser um baita choque ouvir essa canção destilar tanta sensualidade (no sentido correto do termo, uma vez que o sussurrar de Julie London tem uma qualidade "tátil" que não se deixa ignorar), prazer com a vida, malícia e sofisticação. Deve fazer gente perder o rumo. E isso tudo numa época em que não se entrava em cinema sem paletó e gravata!

Julie is her name

COM JULIE LONDON (1926-2000), a indústria fonográfica imaginou ter esbarrado no proverbial pote de ouro. Destacada dentre uma gloriosa estirpe de intérpretes brancas de standard/jazz norte-americano, Julie combinava um talento vocal indiscutível com uma figura de causar inveja às mais voluptuosas starlets dos alegres anos 50. Ao lado de nomes como Helen Merrill, Keely Smith, June Christy e outras dessa categoria, London era a madre superiora do pecado mora ao lado.

E o mais divertido é saber que a moça nunca entendeu o que viam nela, não se achava lá dona desse talento vocal/escultural todo e, no fim das contas, quis muito mais saber de virar pacata dona de casa, mãe e esposa do que arrasar quarteirões em Hollywood, isso a despeito de ter iluminado alguns filmes, e, já nos anos 70, quando o ouvido de lata de Hopper (v. Waugh, mestre e mentor) já começava sua tirania sobre as gravadoras, ter ainda feito boa figura na série "de médico" Emergency!, ao lado do marido, produtor e empresário Bobby Troup – na época, Senhor e Senhora Julie London eram "produzidos", na série, pelo ex-marido de Julie, Jack Webb (!).

Na canção, Julie era como aquelas atrizes míticas, que preenchiam todos os cantos da tela com um poder magistral inominável (não, não é só glamour) e faziam ecoar, além das meras palavras, toneladas de discursos e significados que a gente lê com alguma sensibilidade ignota, e que separam as deusas dos tolos mortais (v. Robin Goodfellow, the merry wanderer of the nignt). Claro, dirão alguns, a "mensagem" de dona London é mais unidimensional, mais voltada ao baixo-ventre. Sim, argumento, mas há aí mais arte e engenho, quando a execução é do nível dela do que se pode almejar o mercado carne de terceira que se tem hoje. Basta pegar o exemplo menos sutil de todos, Go Slow, onde Julie parte pros finalmentes e temos, sim, a canção mais explicitamente erótica da história, sem qualquer vulgaridade. Ora, ora, até o grande Porter (Cole) não resistiu à tentação do duplo sentido (como, ademais, Shakespeare) em coisas como "...Just got pinched in the As... tor bar?", então por que não Julie, com aquela voz defumada de bombshell de estourar Iwo Jima? E juntem-se mais e mais exemplos de grande interpretação, feminilidade e sofisticação, que transbordam de todo o repertório da moça, das mais batidas Cry me a River, No Moon at All, Love for Sale, Two Sleepy People, Easy Street, Around Midnight, Sophisticated Lady, A Cottage for Sale (em termos de ironia por segundo de música, um tesouro sem par!) e I’m in the Mood for Love, até pequenas pérolas como I Guess I Have to Change My Plan.

Com essa música, dentre outras, não dá para deixar de notar a influência que Julie London trouxe à Bossa-Nova, essa maravilhosa contribuição da civilização brasílica, extinta pouco depois, lá por volta de 1962, embora só creditem com freqüência o Chet Baker.

Ruy Castro nos conta que lá pelos 1970, o Maksoud tentou de tudo para trazer Julie London a estas plagas, mas a moça já estava por demais feliz na sua aldeia, o que matou o projeto. E foi até bom, porque só daria uma inveja danada de não estar lá para ouvir...

Para as massas sofridas de hoje, a quem empulham lixos infinitos, como na dieta engorda-ganso de sádicos fazendeiros franceses, creio que foi aquela excelente moça auto-podólatra, a Diana Krall, quem resgatou o prestígio de Julie London, regravando Cry me a River, em 2000 (ou mais ou menos por essa época). Interessante como duas donzelas de qualidades vocais tão díspares – London com aquele fio de voz esfumaçado, que parece sair dela como aquela longa voluta cinza que se desprende da cigarreira de Gilda, Rita Hayworth, na famosa foto, e Krall com aquela potência vocal que só julgaríamos possível nas grandes divas negras do jazz – conseguem, ambas, resultados adoráveis com a mesma música (escrita por Arthur Hamilton que, dizem-me, foi coleguinha de colégio de Julie, coitado...).

E olhem que a voz de Julie faz falta nesse meio, onde ninguém se lhe compara, apesar da plêiade de boas cantoras de registros diferentes do dela – Krall, a pianista auto-podólatra de quem já falei; Péroux, com sua voz mediúnica, em que a desencarnada Miss Holliday "baixa" com gosto e aisance; Monheit, a discípula do Ivan Lins que carrega, para meu gosto, só um pouquinho demais no açúcar. Da Norah Jones não falo, porque acho coisa de ouvido de lata, pra mim soa chato pra cachorro!

Do yourself a favour: se nunca ouviu Julie London, você está se privando de um dos grandes prazeres estéticos que ainda se podem fruir enquanto, lá fora, os hunos sitiam as muralhas da civilização.

segunda-feira, junho 26, 2006

Uma elegia

Os "trinta e nove de 2003" já não somam mais o mesmo número. Uma subtração tira do todo a graça, a leveza que ainda havia; macula a lembrança do muito que houve de bom, o que não lograra fazer o pouco que houve de ruim, nessa trajetória... Mas não é uma subtração qualquer, é perda mesmo. Sentida, dolorosa. Da pior espécie. Aquela que vem, castiga, deixa a dor, e não traz um porquê, um alento de sentido, nada. Perda, pura e simples. Do tipo que já se anuncia no espírito antes que a aurora rompa, fazendo com que o dia que nasce não tenha força de desfazer o escuro da noite, o frio e o luto.

E nós, que aqui ficamos, tateamos por um sentido que, dolorosamente, não há.

Um dia, quem sabe, a força das boas lembranças pesará na conta final mais que o golpe, seco e cruel, do choque puro. Nesse dia, nós, que aqui ficamos, poderemos enterrar o pesar com o solo leve das boas memórias.

Até lá, ficamos com a dor.

Adeus, Diógenes, caro e gentil amigo. Que a paz, onde estiver, o acolha com carinho.

No mais, o silêncio...