Acho bem legal as listas que o Pablo compila das suas paixões e ódios, lá no seu Pablog, qual Nick Hornby "next door". Resolvi começar as minhas:
Adoro:
Minha esposa e minha filha. Chocolate. Aliás, brigadeiro. Livros. Sonhar com livros. Livrarias. Pães, sem mais nada além da própria textura e sabor. Música barroca. Bach. Bryan Ferry. Julie London. Dias frios e chuvosos. Chá preto com leite. Inglaterra eduardiana. Evelyn Waugh. Autores ranzinzas. Paulo Francis. Filmes antigos. Meus filmes cult. Thomas Crown com o Pierce Brosnan e a René Russo. The Man who Would be King. Filmes do James Bond. Cary Grant e Grace Kelly. Paletó e gravata. Coisas bacanas, feitas com arte, mesmo que eu não possa comprá-las. Bom humor e gentileza juntos. Peter Mayle (confesso, já gostei mais do que hoje). Jorge Luis Borges. Não-ficção sobre espionagem. Sandman do Neil Gaiman. Coisas que misturam gêneros, erudição e cultura pop, folclore e história, mito e filosofia, como o Sandman do Neil Gaiman. Pizza de São Paulo. Coca-Cola normal. Bebel Gilberto. Tom Jobim. Rio de Janeiro, 1957. Qualquer coisa de 1957. Jaguar S-Type e XK 120. Kit Kat. Chocolate com menta. Histórias de exploradores. Desertos. UK. The English Patient, do Ondaatje. Frank Sinatra, fase Capitol. Canções do Cole Porter. Suplementos literários. Ler os blógues dos amigos. Andar de carro. Desenhos do Tex Avery. Tom e Jerry, Pica-pau e Pernalonga antigões.
Odeio:
Gente grossa. Blasé excessivo. Música caça-níqueis alegre e idiota. Axé "music". Ritmos baianos de verão, todos os que já vieram e os que ainda virão. Sertanejo e brega romântico dor de corno. Programas de auditório e de "artistas populares" (por que condenam o povo a só se divertir com porcaria descartável, sem inspiração e sem vergonha?). Livros de auto-ajuda e livros "da moda". Filmes idiotas. Comédias idiotas. Filmes de ação idiotas. Relativismo hipócrita. Calor demais. Velozes e Furiosos. Glamurização da bandidagem. Levar vantagem em tudo. "Sabe com quem você está falando?". Arrivismo. E o Vento Levou. Modernizações "calhordas" de desenhos como Tom e Jerry. Coisas "dumbed down". Missão Impossível 2. Armageddon. Filmes da dupla Bruckheimer/Bay. Ben Affleck. Egos inflados, cérebros atrofiados. Concretistas, tribalistas e coisas do tipo. Bolero de Ravel. Música "erudita" com vocação para picadeiro (Chapì, Rimsk-Korsakhov e essas coisas). Neonazismo e xenofobia. Jim Carrey fazendo caretas. Jogo de futebol na TV. Domingo à tarde e à noite. Avião atrasado. Multidões alegres e gritonas. Protestos "de esquerda" na Esplanada. Esse papo de que, no Brasil, todo mundo É índio, negro, mestiço, mulato, bacana, cordial, etc, etc. (além de NÃO ser verdade, viu gente?, ainda é preconceito disfarçado de coisa positiva). Funk carioca. Roupas das mulheres do funk carioca. Gírias do funk carioca que a TV quer "nacionalizar". Jornalistas rasos dando palpite sobre tudo. Gelatina com creme de leite. Britney Spears e rappers americanos que posam de bandidões. Gente que não responde a "bom dia".
Com certeza deve ter mais coisas para acrescentar nas duas listas, mas, por agora, basta.
quinta-feira, agosto 24, 2006
terça-feira, agosto 22, 2006
Um diálogo ente blógues - III
OPA! LEITURA DESATENTA e equivocada! Cometi um pecado mortal!
Com efeito, bastante barrocas as imagens em cera. Confirmando a percepção de que este diálogo está me saindo um passeio pelos labirintos da memória, recordaram-me o querido Augusto dos Anjos e seu "a desarrumação dos intestinos assombra. Vêde-a!", verso lapidar do "Monólogo de uma Sombra".
Aliás, falando em assepsia barroca, li, no livro do André Senet, que item obrigatório às aulas de anatomia do período eram fatias de limão ou laranja, usadas para mascarar odores nauseabundos. Será que isso ainda existe nas academias?
E, de fato, "Restoration" comete um grande pecado, de que Robert Downey Jr. é mais o veículo do que a causa: escorrega feio no melodrama em suas porções finais. Mas não me lembro muito, pois só vi o filme uma vez, no já longínquo anno Domini de 1995. Coisas do século passado, como vêem...
Lembrei também dos libelos contra o corpo e a matéria nos monges de Eco. Creio que Ubertino era o porta-voz dessa corrente ascética-espiritual, estou certo?
Agora, Cid, partamos desses senderos que bifurcam dos labirintos da memória e passemos aos passeios nos bosques da ficção! É seu dever botar a história do Falópio no papel!
(Pronto, lembrei agora do "exercício literário" que o narrador de "Bufo & Spallanzani" aplica aos hóspedes da pousada do Pico do Gavião. Quem não leu esse livro maravilhoso, já está perdendo tempo!)
Com efeito, bastante barrocas as imagens em cera. Confirmando a percepção de que este diálogo está me saindo um passeio pelos labirintos da memória, recordaram-me o querido Augusto dos Anjos e seu "a desarrumação dos intestinos assombra. Vêde-a!", verso lapidar do "Monólogo de uma Sombra".
Aliás, falando em assepsia barroca, li, no livro do André Senet, que item obrigatório às aulas de anatomia do período eram fatias de limão ou laranja, usadas para mascarar odores nauseabundos. Será que isso ainda existe nas academias?
E, de fato, "Restoration" comete um grande pecado, de que Robert Downey Jr. é mais o veículo do que a causa: escorrega feio no melodrama em suas porções finais. Mas não me lembro muito, pois só vi o filme uma vez, no já longínquo anno Domini de 1995. Coisas do século passado, como vêem...
Lembrei também dos libelos contra o corpo e a matéria nos monges de Eco. Creio que Ubertino era o porta-voz dessa corrente ascética-espiritual, estou certo?
Agora, Cid, partamos desses senderos que bifurcam dos labirintos da memória e passemos aos passeios nos bosques da ficção! É seu dever botar a história do Falópio no papel!
(Pronto, lembrei agora do "exercício literário" que o narrador de "Bufo & Spallanzani" aplica aos hóspedes da pousada do Pico do Gavião. Quem não leu esse livro maravilhoso, já está perdendo tempo!)
Um diálogo entre blógues - II
CONTINUANDO À TODO vapor com nosso Interblog Dialogue Initiative Operating Template (I.D.I.O.T.), devo admitir que acho estranha a associação do Marcelo entre "medicina" barroca e assepsia. O conceito, para mim, conjura mais imagens que completam as belas pranchas do De Humani Corporis Fabrica (olha o Vesálio aí, gente!) com bizarrices como o orangotango dissecado, que mestre Gaiman tão bem coloca no seu Brief Lives. Lembra também outra coisa que mencionei ao Cid quando conversamos sobre o Falópio: dentre as minhas mais belas recordações de infância e adolescência estão as várias tardes lendo os volumes da coleção "Descoberta do Mundo", da Editora Itatiaia, de Belo Horizonte (ainda existe?), adquiridos por meu pai. Fazia parte da série de doze livros um fascinante volume, de André Senet, sobre o desenvolvimento histórico da medicina e do conhecimento do corpo humano nas heróicas fases da Antigüidade a Pasteur. O livro se chamava "O Homem descobre seu corpo", que fazia excelente par com "O Homem contra os micróbios" -- este, conto de terror sobre a batalha inglória contra nossos microscópicos co-condôminos do planeta, com escaramuças e grandes confrontos como a Peste Negra do século XIV. Havia lá no livrinho o aterrador panorama da doença sendo importada, dos confins da Ásia, para os centros mercantis da Europa, prenunciando a grande mortandade que assolou o continente.
Daí, aos saltos que dá a memória, lembro do belo filme "Restoration" [EUA/Reino Unido. 1995], com Robert Downey Jr. e Sam Neill, e suas visões da Inglaterra pós-cromwelliana assolada pela peste, com doutores embuçados naqueles bizarros capuzes ornitoformes, onde, creio, colocavam-se esponjas embebidas em vinagre, para matar os mortíferos "esporos" da doença, posto que se acreditava no contágio pelo ar. Por isso, a cena dos nobres envoltos em espessos vapores de incenso, tentando, inutilmente, purificar os eflúvios da pestilência.
Daí, aos saltos que dá a memória, lembro do belo filme "Restoration" [EUA/Reino Unido. 1995], com Robert Downey Jr. e Sam Neill, e suas visões da Inglaterra pós-cromwelliana assolada pela peste, com doutores embuçados naqueles bizarros capuzes ornitoformes, onde, creio, colocavam-se esponjas embebidas em vinagre, para matar os mortíferos "esporos" da doença, posto que se acreditava no contágio pelo ar. Por isso, a cena dos nobres envoltos em espessos vapores de incenso, tentando, inutilmente, purificar os eflúvios da pestilência.
Um diálogo entre blógues
O CARÍSSIMO AMIGO Marcelo Cid, no seu blógue, coloca post deveras interessante sobre um argumento sonhado de uma história com o anatomista Falópio (1523-1562), aquele da trompa homônima. À parte os imediatos e também interessantíssimos comentários que se possam tecer (e já devidamente feitos pessoalmente) sobre os topos dos livros sonhados, das bibliotecas de sonhos, dos livros não-escritos, escritura labirintina e borgeana, etc, sobre a incrível potencialidade do argumento como novela, roteiro cinematográfico, et caterva, e sobre as ilações com o excelente Bufo & Spallanzani, do Rubem Fonseca (não vi o filme, mas já digo que o livro está entre meus preferidos, mais um crédito à minha excelentíssima professora de português do colégio, a mestra e mentora Cláudia Lukianchuki, provando que se lia, e bem, nas escolas d’antanho), de tema semelhante, o que quero comentar agora, espero que inaugurando uma forma de diálogo com o amigo e autor, são as curiosas peculiaridades da divisão temporal ("cronomástica"???) adotada por ele naquele post.
Sim, Renascimento e período Barroco. É natural, como ensinam as escolas, que o primeiro seja, de facto e de jure, categoria temporal precisa para definir o tempo histórico – credencial conquistada pelo muito de ruptura, inovação, particularidade e influência que o período trouxe ao gênero humano em todos os campos (história, sociedade, ciência, arte, filosofia, e o que mais se possa pensar). Deixemo-lo, então, de lado, com o Falópio que aí cabe muito bem. Agora, é o segundo que me parece curioso. Sim, porque o termo "barroco" não implica, necessariamente, uma constelação de idéias tão vasta e precisa como o Renascimento. Claro, há que se falar em barroco na música, na pintura, na arquitetura, mas não é próprio falar numa ciência barroca (seria isso um oxímoro?), numa filosofia barroca, numa sociedade barroca e congêneres.
Afinal, no próprio domínio da arte, que lhe é próprio, o Barroco se presta a subdivisões e fases – maneirismo, rococó – que já demonstram (quod erat demonstrandum) que seu poder sobre o tempo histórico é menos fulcral, menos coercivo que o do Renascimento. Daí que se possa referir, ao mesmo recorte cronológico, com maior ou menor ênfase em períodos específicos, com uma pluralidade de termos, o que abarca o Século das Luzes, o Iluminismo, a Idade Moderna, o período de Luís XIV, o Antigo Regime, o Oitocentos, num campo mais filosófico-político, ou precisar aqui e acolá, seus muitos notáveis nas artes e nas ciências: Canova, Bach, Vesálio, Gongora, Watteau e Bernini seriam, então, apenas alguns, numa vasta lista que se presta a nomear os sacolejantes anos dos séculos XVII e XVIII.
Claro que não quero, com isso, panfletar contra a escolha do grande Marcelo Cid (já me apresso a explicar, antes que seja mal interpretado por leitor menos hábil), acertada como todas as outras, mas apenas discorrer sobre as variadas facetas desse período que acho um dos mais fascinantes da história ocidental. Claro também que isso abre portas para (espero que logo mais) tratar de uma das mais interessantes personalidades e obras do período: Giacomo Girolamo Casanova, o veneziano, cuja obra (sua vida) é dos relatos mais ricos, coloridos, interessantes, variados e incríveis de que se tem notícia.
Está começado o diálogo, eia pois. Que continue!
Sim, Renascimento e período Barroco. É natural, como ensinam as escolas, que o primeiro seja, de facto e de jure, categoria temporal precisa para definir o tempo histórico – credencial conquistada pelo muito de ruptura, inovação, particularidade e influência que o período trouxe ao gênero humano em todos os campos (história, sociedade, ciência, arte, filosofia, e o que mais se possa pensar). Deixemo-lo, então, de lado, com o Falópio que aí cabe muito bem. Agora, é o segundo que me parece curioso. Sim, porque o termo "barroco" não implica, necessariamente, uma constelação de idéias tão vasta e precisa como o Renascimento. Claro, há que se falar em barroco na música, na pintura, na arquitetura, mas não é próprio falar numa ciência barroca (seria isso um oxímoro?), numa filosofia barroca, numa sociedade barroca e congêneres.
Afinal, no próprio domínio da arte, que lhe é próprio, o Barroco se presta a subdivisões e fases – maneirismo, rococó – que já demonstram (quod erat demonstrandum) que seu poder sobre o tempo histórico é menos fulcral, menos coercivo que o do Renascimento. Daí que se possa referir, ao mesmo recorte cronológico, com maior ou menor ênfase em períodos específicos, com uma pluralidade de termos, o que abarca o Século das Luzes, o Iluminismo, a Idade Moderna, o período de Luís XIV, o Antigo Regime, o Oitocentos, num campo mais filosófico-político, ou precisar aqui e acolá, seus muitos notáveis nas artes e nas ciências: Canova, Bach, Vesálio, Gongora, Watteau e Bernini seriam, então, apenas alguns, numa vasta lista que se presta a nomear os sacolejantes anos dos séculos XVII e XVIII.
Claro que não quero, com isso, panfletar contra a escolha do grande Marcelo Cid (já me apresso a explicar, antes que seja mal interpretado por leitor menos hábil), acertada como todas as outras, mas apenas discorrer sobre as variadas facetas desse período que acho um dos mais fascinantes da história ocidental. Claro também que isso abre portas para (espero que logo mais) tratar de uma das mais interessantes personalidades e obras do período: Giacomo Girolamo Casanova, o veneziano, cuja obra (sua vida) é dos relatos mais ricos, coloridos, interessantes, variados e incríveis de que se tem notícia.
Está começado o diálogo, eia pois. Que continue!
quarta-feira, julho 12, 2006
E pra não dizer que não falei das flores...
OL' BLUE EYES! Especialmente na fase da Capitol (1954-1962), com Nelson Riddle à frente da orquestra. A gente escuta e pensa que a vida nunca foi tão rósea, leve e cheia de graça como naqueles poucos anos.
Volumes foram e continuarão sendo escritos sobre Sinatra -- sobre o fraseado impecável, a vida tumultuada, a "alusão" Johnny Fontaine, o renascimento espetacular, no cinema, com From Here to Eternity, a presidência do "Rat Pack" et al. Mas é ali, nas canções daquele período, que o gênio do homem se mostra com maior vigor.
Minha preferida? Too close for comfort, 1959.
Volumes foram e continuarão sendo escritos sobre Sinatra -- sobre o fraseado impecável, a vida tumultuada, a "alusão" Johnny Fontaine, o renascimento espetacular, no cinema, com From Here to Eternity, a presidência do "Rat Pack" et al. Mas é ali, nas canções daquele período, que o gênio do homem se mostra com maior vigor.
Minha preferida? Too close for comfort, 1959.
terça-feira, julho 11, 2006
Conhece-te a ti mesmo
RELENDO AS ÚLTIMAS postagens, acho que o título -- ou, pelo menos, o dístico -- deste blógue deva ser mudado para algo como "resmungos acérbicos d'um velho pedante". Hummm, será que alguém, além de mim, se interessaria por título tão saboroso?
De sapos e príncipes
O SER HUMANO (aham!), quando quer, é mesmo um bicho muito esquisito. O jornalista Reinaldo Azevedo (que, sorry, não é o esquisito a quem me refiro e cujo blógue segue arrolado aí nos links, para me facilitar o prazer de lê-lo todas as manhãs) encerrou, no mês passado, as atividades do veículo que o tornou conhecido, admirado e execrado neste país: a revista "Primeira Leitura" e o site homólogo. O que quero comentar é que, dentre as muitas mensagens de apoio e opróbrio recebidas por ele, particularmente após entrevista explicativa ao Obervatório da Imprensa, uma particularmente chamou minha atenção, por motivos que quero expor agora.
Foi nos comentários à entrevista do Observatório. Uma leitora, se bem me lembro, encasquetou de dizer que o que achava insólito no Sr. Azevedo era a aparência. E perguntava, fazendo-se atônita, se aos demais não partilhavam de seu estranhamento diante de figura, como dizia, tão asseada (or words to that effect), sempre tão limpinha e arrumadinha, referindo-se às aparições dele no programa televisivo "Roda Viva", da TV Cultura. Ademais, a cronista da imagem alheia queria, pelo que entendi, insinuar que tal aparência evidenciaria uma tal fixação anal que acomete os proto-capitalistas em tenra idade e prenuncia sua desumana avareza, ou alguma outra platitude freudina desse quilate.
O tempora, o mores! Nos meus verdes anos, certamente fruto de uma era mais bárbara, rasa e menos iluminada dos pre-hominídeos -- e, portanto, ridícula aos olhos blasés dessa malta de coevos --, conceitos como asseio, educação e urbanidade eram coisas que aprendíamos lá na pré-escola, junto com as primeiras letras, como valores que, em certa medida, go hand-in-hand together, não como signos de vícios ou perversões. Mostravam que, não só na escola, mas também em casa, tínhamos pais e mães, mamíferos de sangue quente, que nos amavam (e faziam bolo!) e cuidavam de nós, o que nos separava de víboras e outros bichos que levam às últimas conseqüências essa weltanschauung de "cada um por si e Deus contra todos".
Alas, poor Yorick, a caravana passa e os cachorros ladram, e o mundo vai ficando mais sujo e feio, decerto como os andrajos pediculosos que essa mulher, pelo que entendo, deve querer que usemos para cobrir as vergohas, se tanto.
Será que gente assim, quando abestalhada diante da graça apurada (fico, para ser justo, em exemplos como o refinado, leve e gostoso savoir-vivre de um Fred Astaire ou de um Cary Grant, ou seja, no gênero mais "terreno" da espécie; afinal, seria jogar baixo lançar nomes de fêmeas, já que, "iconicamente", a mulher alça vôos infinitamente mais altos de recompensa estética, tais quais, vá lá, não resisto, uma Audrey Hepburn parafraseando a Vitória da Samotrácia), sente-se meio morlock, sapo nauseabundo, e acha feio aquilo que não é espelho? Claro que não quero, com isso, comparar o jornalista com esses exemplos injustos (bidu!), mas refiro-me, exclusivamente, à questão dos valores, ao que escolhemos como desejável. Sempre achei que era próprio do ser humano buscar superar a condição de golem, de barro animado em que o bafejo de Elohim insufla a vida, mas vejo que me engano.
Lembro-me daquele instante belo d'O Alfaiate do Panamá, do LeCarré, em que o dito diz à esposa que ela o faz querer ser a better person (or words to that effect). Pelo visto, há quem já ache que nos afastamos demais da caverna.
Foi nos comentários à entrevista do Observatório. Uma leitora, se bem me lembro, encasquetou de dizer que o que achava insólito no Sr. Azevedo era a aparência. E perguntava, fazendo-se atônita, se aos demais não partilhavam de seu estranhamento diante de figura, como dizia, tão asseada (or words to that effect), sempre tão limpinha e arrumadinha, referindo-se às aparições dele no programa televisivo "Roda Viva", da TV Cultura. Ademais, a cronista da imagem alheia queria, pelo que entendi, insinuar que tal aparência evidenciaria uma tal fixação anal que acomete os proto-capitalistas em tenra idade e prenuncia sua desumana avareza, ou alguma outra platitude freudina desse quilate.
O tempora, o mores! Nos meus verdes anos, certamente fruto de uma era mais bárbara, rasa e menos iluminada dos pre-hominídeos -- e, portanto, ridícula aos olhos blasés dessa malta de coevos --, conceitos como asseio, educação e urbanidade eram coisas que aprendíamos lá na pré-escola, junto com as primeiras letras, como valores que, em certa medida, go hand-in-hand together, não como signos de vícios ou perversões. Mostravam que, não só na escola, mas também em casa, tínhamos pais e mães, mamíferos de sangue quente, que nos amavam (e faziam bolo!) e cuidavam de nós, o que nos separava de víboras e outros bichos que levam às últimas conseqüências essa weltanschauung de "cada um por si e Deus contra todos".
Alas, poor Yorick, a caravana passa e os cachorros ladram, e o mundo vai ficando mais sujo e feio, decerto como os andrajos pediculosos que essa mulher, pelo que entendo, deve querer que usemos para cobrir as vergohas, se tanto.
Será que gente assim, quando abestalhada diante da graça apurada (fico, para ser justo, em exemplos como o refinado, leve e gostoso savoir-vivre de um Fred Astaire ou de um Cary Grant, ou seja, no gênero mais "terreno" da espécie; afinal, seria jogar baixo lançar nomes de fêmeas, já que, "iconicamente", a mulher alça vôos infinitamente mais altos de recompensa estética, tais quais, vá lá, não resisto, uma Audrey Hepburn parafraseando a Vitória da Samotrácia), sente-se meio morlock, sapo nauseabundo, e acha feio aquilo que não é espelho? Claro que não quero, com isso, comparar o jornalista com esses exemplos injustos (bidu!), mas refiro-me, exclusivamente, à questão dos valores, ao que escolhemos como desejável. Sempre achei que era próprio do ser humano buscar superar a condição de golem, de barro animado em que o bafejo de Elohim insufla a vida, mas vejo que me engano.
Lembro-me daquele instante belo d'O Alfaiate do Panamá, do LeCarré, em que o dito diz à esposa que ela o faz querer ser a better person (or words to that effect). Pelo visto, há quem já ache que nos afastamos demais da caverna.
Eros e a Civilização
ESQUECI DE FALAR, no post aí de baixo, a propósito de Go Slow, uma coisa interessantíssima: para as gerações de hoje, que acham que o mundo começou ontem e que ninguém é tão safo/cool/original/sexy/tudo-de-bom quanto eles mesmos, deve ser um baita choque ouvir essa canção destilar tanta sensualidade (no sentido correto do termo, uma vez que o sussurrar de Julie London tem uma qualidade "tátil" que não se deixa ignorar), prazer com a vida, malícia e sofisticação. Deve fazer gente perder o rumo. E isso tudo numa época em que não se entrava em cinema sem paletó e gravata!
Julie is her name
COM JULIE LONDON (1926-2000), a indústria fonográfica imaginou ter esbarrado no proverbial pote de ouro. Destacada dentre uma gloriosa estirpe de intérpretes brancas de standard/jazz norte-americano, Julie combinava um talento vocal indiscutível com uma figura de causar inveja às mais voluptuosas starlets dos alegres anos 50. Ao lado de nomes como Helen Merrill, Keely Smith, June Christy e outras dessa categoria, London era a madre superiora do pecado mora ao lado.
E o mais divertido é saber que a moça nunca entendeu o que viam nela, não se achava lá dona desse talento vocal/escultural todo e, no fim das contas, quis muito mais saber de virar pacata dona de casa, mãe e esposa do que arrasar quarteirões em Hollywood, isso a despeito de ter iluminado alguns filmes, e, já nos anos 70, quando o ouvido de lata de Hopper (v. Waugh, mestre e mentor) já começava sua tirania sobre as gravadoras, ter ainda feito boa figura na série "de médico" Emergency!, ao lado do marido, produtor e empresário Bobby Troup – na época, Senhor e Senhora Julie London eram "produzidos", na série, pelo ex-marido de Julie, Jack Webb (!).
Na canção, Julie era como aquelas atrizes míticas, que preenchiam todos os cantos da tela com um poder magistral inominável (não, não é só glamour) e faziam ecoar, além das meras palavras, toneladas de discursos e significados que a gente lê com alguma sensibilidade ignota, e que separam as deusas dos tolos mortais (v. Robin Goodfellow, the merry wanderer of the nignt). Claro, dirão alguns, a "mensagem" de dona London é mais unidimensional, mais voltada ao baixo-ventre. Sim, argumento, mas há aí mais arte e engenho, quando a execução é do nível dela do que se pode almejar o mercado carne de terceira que se tem hoje. Basta pegar o exemplo menos sutil de todos, Go Slow, onde Julie parte pros finalmentes e temos, sim, a canção mais explicitamente erótica da história, sem qualquer vulgaridade. Ora, ora, até o grande Porter (Cole) não resistiu à tentação do duplo sentido (como, ademais, Shakespeare) em coisas como "...Just got pinched in the As... tor bar?", então por que não Julie, com aquela voz defumada de bombshell de estourar Iwo Jima? E juntem-se mais e mais exemplos de grande interpretação, feminilidade e sofisticação, que transbordam de todo o repertório da moça, das mais batidas Cry me a River, No Moon at All, Love for Sale, Two Sleepy People, Easy Street, Around Midnight, Sophisticated Lady, A Cottage for Sale (em termos de ironia por segundo de música, um tesouro sem par!) e I’m in the Mood for Love, até pequenas pérolas como I Guess I Have to Change My Plan.
Com essa música, dentre outras, não dá para deixar de notar a influência que Julie London trouxe à Bossa-Nova, essa maravilhosa contribuição da civilização brasílica, extinta pouco depois, lá por volta de 1962, embora só creditem com freqüência o Chet Baker.
Ruy Castro nos conta que lá pelos 1970, o Maksoud tentou de tudo para trazer Julie London a estas plagas, mas a moça já estava por demais feliz na sua aldeia, o que matou o projeto. E foi até bom, porque só daria uma inveja danada de não estar lá para ouvir...
Para as massas sofridas de hoje, a quem empulham lixos infinitos, como na dieta engorda-ganso de sádicos fazendeiros franceses, creio que foi aquela excelente moça auto-podólatra, a Diana Krall, quem resgatou o prestígio de Julie London, regravando Cry me a River, em 2000 (ou mais ou menos por essa época). Interessante como duas donzelas de qualidades vocais tão díspares – London com aquele fio de voz esfumaçado, que parece sair dela como aquela longa voluta cinza que se desprende da cigarreira de Gilda, Rita Hayworth, na famosa foto, e Krall com aquela potência vocal que só julgaríamos possível nas grandes divas negras do jazz – conseguem, ambas, resultados adoráveis com a mesma música (escrita por Arthur Hamilton que, dizem-me, foi coleguinha de colégio de Julie, coitado...).
E olhem que a voz de Julie faz falta nesse meio, onde ninguém se lhe compara, apesar da plêiade de boas cantoras de registros diferentes do dela – Krall, a pianista auto-podólatra de quem já falei; Péroux, com sua voz mediúnica, em que a desencarnada Miss Holliday "baixa" com gosto e aisance; Monheit, a discípula do Ivan Lins que carrega, para meu gosto, só um pouquinho demais no açúcar. Da Norah Jones não falo, porque acho coisa de ouvido de lata, pra mim soa chato pra cachorro!
Do yourself a favour: se nunca ouviu Julie London, você está se privando de um dos grandes prazeres estéticos que ainda se podem fruir enquanto, lá fora, os hunos sitiam as muralhas da civilização.
E o mais divertido é saber que a moça nunca entendeu o que viam nela, não se achava lá dona desse talento vocal/escultural todo e, no fim das contas, quis muito mais saber de virar pacata dona de casa, mãe e esposa do que arrasar quarteirões em Hollywood, isso a despeito de ter iluminado alguns filmes, e, já nos anos 70, quando o ouvido de lata de Hopper (v. Waugh, mestre e mentor) já começava sua tirania sobre as gravadoras, ter ainda feito boa figura na série "de médico" Emergency!, ao lado do marido, produtor e empresário Bobby Troup – na época, Senhor e Senhora Julie London eram "produzidos", na série, pelo ex-marido de Julie, Jack Webb (!).
Na canção, Julie era como aquelas atrizes míticas, que preenchiam todos os cantos da tela com um poder magistral inominável (não, não é só glamour) e faziam ecoar, além das meras palavras, toneladas de discursos e significados que a gente lê com alguma sensibilidade ignota, e que separam as deusas dos tolos mortais (v. Robin Goodfellow, the merry wanderer of the nignt). Claro, dirão alguns, a "mensagem" de dona London é mais unidimensional, mais voltada ao baixo-ventre. Sim, argumento, mas há aí mais arte e engenho, quando a execução é do nível dela do que se pode almejar o mercado carne de terceira que se tem hoje. Basta pegar o exemplo menos sutil de todos, Go Slow, onde Julie parte pros finalmentes e temos, sim, a canção mais explicitamente erótica da história, sem qualquer vulgaridade. Ora, ora, até o grande Porter (Cole) não resistiu à tentação do duplo sentido (como, ademais, Shakespeare) em coisas como "...Just got pinched in the As... tor bar?", então por que não Julie, com aquela voz defumada de bombshell de estourar Iwo Jima? E juntem-se mais e mais exemplos de grande interpretação, feminilidade e sofisticação, que transbordam de todo o repertório da moça, das mais batidas Cry me a River, No Moon at All, Love for Sale, Two Sleepy People, Easy Street, Around Midnight, Sophisticated Lady, A Cottage for Sale (em termos de ironia por segundo de música, um tesouro sem par!) e I’m in the Mood for Love, até pequenas pérolas como I Guess I Have to Change My Plan.
Com essa música, dentre outras, não dá para deixar de notar a influência que Julie London trouxe à Bossa-Nova, essa maravilhosa contribuição da civilização brasílica, extinta pouco depois, lá por volta de 1962, embora só creditem com freqüência o Chet Baker.
Ruy Castro nos conta que lá pelos 1970, o Maksoud tentou de tudo para trazer Julie London a estas plagas, mas a moça já estava por demais feliz na sua aldeia, o que matou o projeto. E foi até bom, porque só daria uma inveja danada de não estar lá para ouvir...
Para as massas sofridas de hoje, a quem empulham lixos infinitos, como na dieta engorda-ganso de sádicos fazendeiros franceses, creio que foi aquela excelente moça auto-podólatra, a Diana Krall, quem resgatou o prestígio de Julie London, regravando Cry me a River, em 2000 (ou mais ou menos por essa época). Interessante como duas donzelas de qualidades vocais tão díspares – London com aquele fio de voz esfumaçado, que parece sair dela como aquela longa voluta cinza que se desprende da cigarreira de Gilda, Rita Hayworth, na famosa foto, e Krall com aquela potência vocal que só julgaríamos possível nas grandes divas negras do jazz – conseguem, ambas, resultados adoráveis com a mesma música (escrita por Arthur Hamilton que, dizem-me, foi coleguinha de colégio de Julie, coitado...).
E olhem que a voz de Julie faz falta nesse meio, onde ninguém se lhe compara, apesar da plêiade de boas cantoras de registros diferentes do dela – Krall, a pianista auto-podólatra de quem já falei; Péroux, com sua voz mediúnica, em que a desencarnada Miss Holliday "baixa" com gosto e aisance; Monheit, a discípula do Ivan Lins que carrega, para meu gosto, só um pouquinho demais no açúcar. Da Norah Jones não falo, porque acho coisa de ouvido de lata, pra mim soa chato pra cachorro!
Do yourself a favour: se nunca ouviu Julie London, você está se privando de um dos grandes prazeres estéticos que ainda se podem fruir enquanto, lá fora, os hunos sitiam as muralhas da civilização.
segunda-feira, junho 26, 2006
Uma elegia
Os "trinta e nove de 2003" já não somam mais o mesmo número. Uma subtração tira do todo a graça, a leveza que ainda havia; macula a lembrança do muito que houve de bom, o que não lograra fazer o pouco que houve de ruim, nessa trajetória... Mas não é uma subtração qualquer, é perda mesmo. Sentida, dolorosa. Da pior espécie. Aquela que vem, castiga, deixa a dor, e não traz um porquê, um alento de sentido, nada. Perda, pura e simples. Do tipo que já se anuncia no espírito antes que a aurora rompa, fazendo com que o dia que nasce não tenha força de desfazer o escuro da noite, o frio e o luto.
E nós, que aqui ficamos, tateamos por um sentido que, dolorosamente, não há.
Um dia, quem sabe, a força das boas lembranças pesará na conta final mais que o golpe, seco e cruel, do choque puro. Nesse dia, nós, que aqui ficamos, poderemos enterrar o pesar com o solo leve das boas memórias.
Até lá, ficamos com a dor.
Adeus, Diógenes, caro e gentil amigo. Que a paz, onde estiver, o acolha com carinho.
No mais, o silêncio...
E nós, que aqui ficamos, tateamos por um sentido que, dolorosamente, não há.
Um dia, quem sabe, a força das boas lembranças pesará na conta final mais que o golpe, seco e cruel, do choque puro. Nesse dia, nós, que aqui ficamos, poderemos enterrar o pesar com o solo leve das boas memórias.
Até lá, ficamos com a dor.
Adeus, Diógenes, caro e gentil amigo. Que a paz, onde estiver, o acolha com carinho.
No mais, o silêncio...
sexta-feira, maio 26, 2006
Efeméride
E O "LABIRINTO DAS Letras" chegou a seu primeiro aniversário. Não logrou -- for better or worse -- o "nenhum dia sem linha", mas segue caminhando, como quem não quer nada, figurativa ou literalmente falando.
terça-feira, maio 09, 2006
Interlúdio
PASSEANDO HOJE PELOS arquivos do blog do genialíssimo Neil Gaiman, esbarrei nesta entrada lapidar:
Pois é. Esse é o homem. Um dos maiores escritores da atualidade, no less.
De quebra, ainda encontramos, no mesmo texto, a origem do episódio do camelô desmascarado no episódio da Morte ("Death and Venice"), em "Endless Nights".
i suspect that Venice is full of ghosts. Not of Venetians, but of all the
visitors who came, and fell in love with the place, and promised themselves
they'd be back, dead or alive.
-- Neil Gaiman, Arquivos do "American Gods Journal", 21 de setembro de 2001.
Pois é. Esse é o homem. Um dos maiores escritores da atualidade, no less.
De quebra, ainda encontramos, no mesmo texto, a origem do episódio do camelô desmascarado no episódio da Morte ("Death and Venice"), em "Endless Nights".
quinta-feira, maio 04, 2006
Schadenfreude
SEI QUE CORRO o risco de parecer monomaníaco, chato ou simplesmente "sem assunto", mas como meu público leitor se resume a dois ou três amigos próximos (aha!, nisso posso me vangloriar do meu elitismo, pois possuo um público mais seleto e rarefeito do que os "quatro ou cinco medievalistas e talvez um ou dois cardeais" que Eco imaginava como o público ideal que acolheria seu "O Nome da Rosa"!!!), posso ainda discorrer sobre mais um assuntozinho relacionado ao tema dos posts precedentes:
Leio, no site do Guardian Unlimited, interessante artigo intitulado "Sadness and Glee at Harvard Writer's Fall" (ver aqui), em que uma colega de escola da autora de nome complicado lamenta (reluto a pensar que com esnobismo, para não cair em preconceitos ou chavões de escritura) o espírito de Schadenfreude do mundo, consubstanciado no deleite que alguns colegas de universidade sentiram ao saber da denúncia de plágio.
Schadenfreude, como sabemos, é o epíteto high brow do tradicinal ditame "pimenta nos olhos (...) dos outros é refresco". [Digressão: quantas bobagens ditas aqui e acolá não pareceriam profundas e epifânicas se substituídas por longos palavrões de aglutinante germanismo! A seu modo, sou mais partidário desses palavrões do que, na mesma linha, de construtos hifenizados como "estar-no-mundo" ou "ler-o-mundo", que, para mim, soam patéticos. Daí, lembro-me do divertidíssimo post sobre a crítica do Mencken ao obscurantismo dos metafísicos e, pensando que o Francis acharia tudo isso coisa de "pseudo", deixo essa conversa pra lá). Só que, no caso em questão, como a teutônica e psicanalítica expressão vem mascarar uma invertebrada posição de isenção e "justiça" que nada mais é do que dourar a pílula da realidade (não mais azul ou vermelha, mas doirada, gilt, e ilusória como placebo de farinha de trigo), vejo nela a cara do inimigo (a ser demascarado, dentre outros assuntos, nos futuros posts, aqueles que mencionei ao final do artigo abaixo): namely, a correção política spineless, inócua, inodora e insípida!
Como não se cansa de repetir o Reinaldo Azevedo, que leio com avidez e fraternidade d'alma, o mal do mundo é que o ser humano virou criança mimada, que a muleta da psicanálise (enquanto máscara socialmente aceitável do egoísmo mais odioso e chão, como quer Houellebecq -- aliás também assunto de futuro post, já no forno) vem pegar pela mão e eximir da responsabilidade do "ser-adulto-no-mundo" (risos). Papini já prenunciava no "Gog" (louvado seja esse livro, mil vezes!), lá na primeira metade do século XX: puericracia! Dentre outras coisas, puericracia dá nisso. Cada vez mais nos parecemos com os elói da "Máquina do Tempo": jovens, belos e bobos, até que, das trevas do subterrâneo, subam morlocks para nos devorar!
Anotai estas palavras: do pantâno da novilíngua politicamente correta nascerá a nêmesis da civilização ocidental!
Leio, no site do Guardian Unlimited, interessante artigo intitulado "Sadness and Glee at Harvard Writer's Fall" (ver aqui), em que uma colega de escola da autora de nome complicado lamenta (reluto a pensar que com esnobismo, para não cair em preconceitos ou chavões de escritura) o espírito de Schadenfreude do mundo, consubstanciado no deleite que alguns colegas de universidade sentiram ao saber da denúncia de plágio.
Schadenfreude, como sabemos, é o epíteto high brow do tradicinal ditame "pimenta nos olhos (...) dos outros é refresco". [Digressão: quantas bobagens ditas aqui e acolá não pareceriam profundas e epifânicas se substituídas por longos palavrões de aglutinante germanismo! A seu modo, sou mais partidário desses palavrões do que, na mesma linha, de construtos hifenizados como "estar-no-mundo" ou "ler-o-mundo", que, para mim, soam patéticos. Daí, lembro-me do divertidíssimo post sobre a crítica do Mencken ao obscurantismo dos metafísicos e, pensando que o Francis acharia tudo isso coisa de "pseudo", deixo essa conversa pra lá). Só que, no caso em questão, como a teutônica e psicanalítica expressão vem mascarar uma invertebrada posição de isenção e "justiça" que nada mais é do que dourar a pílula da realidade (não mais azul ou vermelha, mas doirada, gilt, e ilusória como placebo de farinha de trigo), vejo nela a cara do inimigo (a ser demascarado, dentre outros assuntos, nos futuros posts, aqueles que mencionei ao final do artigo abaixo): namely, a correção política spineless, inócua, inodora e insípida!
Como não se cansa de repetir o Reinaldo Azevedo, que leio com avidez e fraternidade d'alma, o mal do mundo é que o ser humano virou criança mimada, que a muleta da psicanálise (enquanto máscara socialmente aceitável do egoísmo mais odioso e chão, como quer Houellebecq -- aliás também assunto de futuro post, já no forno) vem pegar pela mão e eximir da responsabilidade do "ser-adulto-no-mundo" (risos). Papini já prenunciava no "Gog" (louvado seja esse livro, mil vezes!), lá na primeira metade do século XX: puericracia! Dentre outras coisas, puericracia dá nisso. Cada vez mais nos parecemos com os elói da "Máquina do Tempo": jovens, belos e bobos, até que, das trevas do subterrâneo, subam morlocks para nos devorar!
Anotai estas palavras: do pantâno da novilíngua politicamente correta nascerá a nêmesis da civilização ocidental!
Sobre livros, salsichas e o fim de todas as utopias
PASSA O TEMPO E o caso do livrinho de Ms. Kaavya Viswanathan só fica mais e mais interessante! A nova peça do puzzle agora é a participação, no affair "Opal Mehta", de uma empresa atuante no segmento de "book packaging" chamada Alloy Enterteinment.
O gentil leitor, como a gigantesca maioria da humanidade, creio, ainda nutre a idéia de que livros -- e, em especial, romances e demais formatos do que se chama "Literatura", com capital L -- nascem do talento e dedicação do que chamamos "autores"? Pensa, talvez, que esses autores são seres dotados de singular conhecimento, vivência, sensibilidade, quiçá genialidade ou originalidade? Que, na maioria das vezes, o ato da escrita é uma experiência solitária, cujos protagonistas são o tal do autor, suas emoções, medos, esperanças e uma folha de papel em branco? Papel esse que deve ser preenchido com engenho e arte, com sangue, suor e lágrimas (ou com outro fluido qualquer que denote o ato criativo, ou destrutivo, do Ser Humano)?
Tsc, tsc, caro leitor -- think again!
Essa romântica imagem do escritor, febril na sua torre de marfim (onde o beneditino lavra, longe do turbilhão estéril da rua) pode até ter existido nalgum mítico rincão pré-Revolução Industrial, ou em torno de algum excêntrico masoquista do estranho e distante século XX. Pode até ter sido a realidade dos monges copistas de Eco; dos decadentes nobres chegados a um kiss and tell, de Laclos; ou, ainda, dos delírios etílicos de um Bukowski ou de desajustados como Miller, Hemingway, Faulkner, Parker, Waugh, Sagan ou Fonseca... Hoje, essa imagem parece conjurar uma constelação de artefatos tão anacrônicos como o fiacre, um conjunto cartola-monóculo-fraque-plastrão-e-polainas, ou loção pós-barba "Old Spice"! Sim, porque tudo isso foi substituído pela eficiência empresarial dos book packagers!
Então, caro leitor, tome essa pílula azul (ou seria a vermelha?, os detalhes agora me fogem...) e seja bem-vindo ao deserto do real! Saiba, então que, em algum momento, em fins do século XX, houve uma revolta das máquinas. As máquinas, então conhecidas como "businesspeople" perceberam que era contraproducente deixar o lucrativo negócio da Literatura nas mãos de gente ineficaz, preguiçosa, tomada por paroxismos de sensibilidade ou catalepsias movidas a ruminações intelectualóides -- então, tomaram o lugar dessa escória humana, os escritores, e começaram a produzir best sellers em ritmo industrial, com rapidez, eficiência. Just in time. On demand. In a New York minute. Porém, para não despertar o apático resto do gênero humano, aqueles que manteriam escravizados num construto de entretenimento artificial, modulado e controlado, as máquinas bolaram um simulacro daquela realidade pré-Matrix, para que a boa gente crédula não percebesse que, por trás da fachada daquela realidade virtual, o novo negócio da literatura produzia obras como antes se enchiam salsichas: mecanicamente, com restos e subprodutos reciclados e encapsulados num pacote mais ou menos deglutível. Esse maquiavélico artifício das máquinas consistia em apresentar um símile de autor, um nome, "real" ou imaginário, que transmitisse a falsa impressão de que aquele produto comercial, o livro, fora produzido não por um batalhão de executivos e redatores profissionais, mas por um bom e velho autor.
De forma mais prosaica, o negócio é o seguinte: empresas como a Alloy produzem em série, por meio de grupos de trabalho, enredos e sinopses que são, então, entregues a editores especializados ou -- vá lá! -- a jovens escritores que os transformarão em livros como os conhecemos. No segundo caso, como foi o da jovem Kaavya Viswanathan, os rendimentos (advances e percentuais de vendas) são partilhados entre o "autor" e o book packager, assim como acontece com o copyright da obra. No primeiro caso, o livro é publicado com um nome qualquer, que na verdade camufla e sintetiza o batalhão de profissionais que está por trás dele (mais ou menos como aquela história de que, em Hollywood, filmes que são renegados por seus diretores acabam saindo como sendo dirigidos por um tal Alan Smithee, cineasta de ampla e variada, conquanto modorrenta, obra).
Assim, o affair "Opal Mehta" apenas logrou expôr a ponta de um iceberg que já está aí há décadas. Apenas deu um vislumbre da Matriz, do vasto campo mecanizado de manipulação e processamento da criatividade literária.
As decorrências disso são muitas, profundas e adequadas a divagações filosóficas que acompanharão, em breve, uma série de artigos que pretendo postar aqui sobre o ethos (ou pathos) cultural-social desse doudo mundo contemporâneo. Venho matutando sobre diversos signos e signos dentro de signos que pretendo explorar, com mais tempo, e lançar a vós, parcos leitores!
O gentil leitor, como a gigantesca maioria da humanidade, creio, ainda nutre a idéia de que livros -- e, em especial, romances e demais formatos do que se chama "Literatura", com capital L -- nascem do talento e dedicação do que chamamos "autores"? Pensa, talvez, que esses autores são seres dotados de singular conhecimento, vivência, sensibilidade, quiçá genialidade ou originalidade? Que, na maioria das vezes, o ato da escrita é uma experiência solitária, cujos protagonistas são o tal do autor, suas emoções, medos, esperanças e uma folha de papel em branco? Papel esse que deve ser preenchido com engenho e arte, com sangue, suor e lágrimas (ou com outro fluido qualquer que denote o ato criativo, ou destrutivo, do Ser Humano)?
Tsc, tsc, caro leitor -- think again!
Essa romântica imagem do escritor, febril na sua torre de marfim (onde o beneditino lavra, longe do turbilhão estéril da rua) pode até ter existido nalgum mítico rincão pré-Revolução Industrial, ou em torno de algum excêntrico masoquista do estranho e distante século XX. Pode até ter sido a realidade dos monges copistas de Eco; dos decadentes nobres chegados a um kiss and tell, de Laclos; ou, ainda, dos delírios etílicos de um Bukowski ou de desajustados como Miller, Hemingway, Faulkner, Parker, Waugh, Sagan ou Fonseca... Hoje, essa imagem parece conjurar uma constelação de artefatos tão anacrônicos como o fiacre, um conjunto cartola-monóculo-fraque-plastrão-e-polainas, ou loção pós-barba "Old Spice"! Sim, porque tudo isso foi substituído pela eficiência empresarial dos book packagers!
Então, caro leitor, tome essa pílula azul (ou seria a vermelha?, os detalhes agora me fogem...) e seja bem-vindo ao deserto do real! Saiba, então que, em algum momento, em fins do século XX, houve uma revolta das máquinas. As máquinas, então conhecidas como "businesspeople" perceberam que era contraproducente deixar o lucrativo negócio da Literatura nas mãos de gente ineficaz, preguiçosa, tomada por paroxismos de sensibilidade ou catalepsias movidas a ruminações intelectualóides -- então, tomaram o lugar dessa escória humana, os escritores, e começaram a produzir best sellers em ritmo industrial, com rapidez, eficiência. Just in time. On demand. In a New York minute. Porém, para não despertar o apático resto do gênero humano, aqueles que manteriam escravizados num construto de entretenimento artificial, modulado e controlado, as máquinas bolaram um simulacro daquela realidade pré-Matrix, para que a boa gente crédula não percebesse que, por trás da fachada daquela realidade virtual, o novo negócio da literatura produzia obras como antes se enchiam salsichas: mecanicamente, com restos e subprodutos reciclados e encapsulados num pacote mais ou menos deglutível. Esse maquiavélico artifício das máquinas consistia em apresentar um símile de autor, um nome, "real" ou imaginário, que transmitisse a falsa impressão de que aquele produto comercial, o livro, fora produzido não por um batalhão de executivos e redatores profissionais, mas por um bom e velho autor.
De forma mais prosaica, o negócio é o seguinte: empresas como a Alloy produzem em série, por meio de grupos de trabalho, enredos e sinopses que são, então, entregues a editores especializados ou -- vá lá! -- a jovens escritores que os transformarão em livros como os conhecemos. No segundo caso, como foi o da jovem Kaavya Viswanathan, os rendimentos (advances e percentuais de vendas) são partilhados entre o "autor" e o book packager, assim como acontece com o copyright da obra. No primeiro caso, o livro é publicado com um nome qualquer, que na verdade camufla e sintetiza o batalhão de profissionais que está por trás dele (mais ou menos como aquela história de que, em Hollywood, filmes que são renegados por seus diretores acabam saindo como sendo dirigidos por um tal Alan Smithee, cineasta de ampla e variada, conquanto modorrenta, obra).
Assim, o affair "Opal Mehta" apenas logrou expôr a ponta de um iceberg que já está aí há décadas. Apenas deu um vislumbre da Matriz, do vasto campo mecanizado de manipulação e processamento da criatividade literária.
As decorrências disso são muitas, profundas e adequadas a divagações filosóficas que acompanharão, em breve, uma série de artigos que pretendo postar aqui sobre o ethos (ou pathos) cultural-social desse doudo mundo contemporâneo. Venho matutando sobre diversos signos e signos dentro de signos que pretendo explorar, com mais tempo, e lançar a vós, parcos leitores!
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